JUNHO 2005
LITERATURA
       

DA FEIRA DO LIVRO DE LISBOA e afins! - Entrevista a Ângelo Rodrigues.

Quais as expectativas para a Feira do Livro deste ano?

As expectativas são sempre as melhores. Todos os anos renasce a esperança que é a última a morrer! Desejo que este ano a feira seja melhor que nos anos anteriores em todos os aspectos: desde a logística e a funcionalidade até à programação cultural que não tem sido a melhor e a mais pertinente para um evento desta natureza. Estou um pouco cansado da mesma concepção de eventos. Inovar é preciso e urgente! É necessário também convidar “outras” pessoas (programadores e criativos para além de “outras” instituições). Esta feira tem alguns vícios porque – entre outras razões - me parece que são sempre os mesmos a reflectir e a executar.

Quais os principais lançamentos que a vossa editora planeia ter durante este evento?

Tencionamos realizar no Auditório Principal da feira, três apresentações de livros em cerimónia apropriada: em princípio, no dia 4 de Junho apresentaremos a colectânea de conto e poesia LAÇOS DE PALAVRAS com vinte autores da diáspora. No dia 5 de Junho tencionamos apresentar o livro de ficção DITOS NORMAIS de Jorge Oliveira (director do Espaço t) com o apoio desta instituição. No dia 11 de Junho está previsto a apresentação de um “grande” romance NA CIDADE SECRETA DOS GOLFINHOS de Deep Me. Este evento terá uma componente lúdica e musical inovadora e tentaremos que seja um dos eventos de referência desta edição da Feira do Livro de Lisboa - assim possamos ter – como desejamos – o devido apoio logístico da APEL e da C.M. de Lisboa. Paralelamente a estas apresentações, decorrerão no stand da Editorial Minerva, praticamente todos os dias, várias sessões de autógrafos e um espaço de informação e esclarecimento aos novos autores no âmbito do nosso DNA - Departamento de Novos Autores da editora.

Que balanço faz da Feira do Livro nos últimos anos?

Trata-se, de facto, de um evento marcante para a cidade de Lisboa e para o país. Se eu tivesse algum poder sobre a organização e concepção da feira, alteraria cerca de cinquenta por cento de tudo um pouco. Entre outras medidas a reflectir com mais calma e tempo, retirava a feira do local onde se encontra e procuraria, como medida principal, organizar – com bastante antecedência – um bom e ecléctico programa cultural. Além do referido, os stands que existem já não têm muito sentido para os dias de hoje e não dignificam em nada o aspecto e a estética da feira – está tudo muito visto e o público habitual está cansado. Este evento necessita urgentemente de ser modernizado e adaptado às novas exigências e aos novos hábitos de um público que se deseja também novo. De 0 a 10, o balanço é 5.

Em que medida pode contribuir um evento desta natureza para o mercado livreiro?

Para mim é evidente que esta feira exista, se desenvolva e se modernize (com tudo o que isso implica) para bem do mercado livreiro – principalmente os pequenos e médios editores. Para muitos, as vendas só são razoáveis por esta altura do ano. Tenho uma teoria muito peculiar e pouco ortodoxa que revolucionaria o mercado do livro mas por agora – também por uma questão de tempo – limito-me a deixar esta pequena provocação: acabem com as vendas de livros nos hipermercados e fechem, de vez, as livrarias demasiado selectivas, preconceituosas e algo pretensiosas; uma boa livraria deve ter tudo, exactamente TUDO. Se comprarem os livros directamente aos editores muita coisa poderá melhorar tal como a redução do preço dos livros e o consequente aumento do consumo bem como o provável e desejável desenvolvimento dos hábitos de leitura. Parece uma proposta paradoxal mas garanto que não é. Com a Internet muita coisa mudou. Eu e a minha família (como tanta gente) adquirimos vários livros e é raro fazê-lo nas livrarias e muito menos nos hipermercados e nas grandes superfícies.

Concorda com os moldes em que este evento é feito? O que mudaria?

Digamos que concordo com uma parte e outra não. Como já referi, a programação cultural devia ser mais cuidada e realizada com mais tempo de antecedência. Além disso, penso que seria desejável envolver mais as escolas e outras importantes instituições. Como já referi, mudava o local, a estética geral da Feira e o tipo de promoção da mesma.

Quais as grandes diferenças que encontra, comparando este evento com outras feiras no estrangeiro?

Em muitos aspectos, precisamente o contrário do que referi atrás: melhor promoção do evento e das editoras; mais apoio aos editores e aos intervenientes (artistas, escritores e outros agentes) do programa cultural; melhores condições e infra-estruturas. Sinceramente, de uma maneira geral, os auditórios principais das várias sessões da feira não têm tido a qualidade estética e arquitectónica compatível com a importância e a dignidade do evento. Mas também há coisas muito boas que não mudaria. Penso que, com o mesmo tipo de investimento económico e humano se poderia fazer muito melhor. É também uma questão de carolice, vontade, criatividade, gosto e empenho.

Em que medida estes eventos podem ser importantes para as cidades que os acolhem?

Penso que a importância é óbvia. Não imagino a cidade de Lisboa sem uma feira do livro com esta dimensão. Esta feira faz parte integrante do “património” de Lisboa.

Concorda com a forma como o espaço está distribuído? Em caso negativo, porquê?

O Parque Eduardo VII é um local aprazível, bonito e central da cidade mas não oferece outro tipo de condições tidas como fundamentais ao evento. Trata-se de um espaço desnivelado e ao ar livre! É raro o ano em que não chove durante a feira com as consequências óbvias para as vendas e para a cativação de público. Quanto à distribuição de espaços, não me parece o melhor. Além de tudo isto, continua-se a fazer experiências todos os anos com nefastas consequências para os editores e para os visitantes. Dá a sensação que a feira é pensada e executada “em-cima-do-joelho”. Ora, um evento desta natureza devia ter um plano bem elaborado e competente e o seu projecto devia começar logo que termina a última feira; enquanto isto não for interiorizado e assumido por quem de direito, será sempre mais do mesmo.

Qual o peso da Feira do Livro nos negócios anuais da vossa editora?

Não sei exactamente quantificar mas tenho a percepção de que esta é a feira - em Portugal - onde mais se vende.

Que comentários lhe merece a cobertura mediática a este evento?

Já me referi um pouco a isso dizendo que devia haver uma maior e melhor cobertura mediática. Se me é permitido uma sugestão, tentem este ano – talvez ainda possam ir a tempo – envolver mais as escolas. Sei, por experiência própria (também sou professor), que pouca ou nenhuma informação (promoção/divulgação) chega às escolas sobre este grande evento da capital e do país. Oxalá tudo melhore um pouco mais nesta edição!

Ângelo Rodrigues
http://angelorodrigues1.com.sapo.pt (página pessoal )
Director literário
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